quarta-feira, 22 de Setembro de 2010

O que são ritos de passagem?

jovem da etnia yawalapiti se submete a ritual de passagemJovem da etnia yawalapiti (Alto Xingu, Brasil) submete-se a um ritual de passagem, em que a sua pele é arranhada com dentes de peixe até sangrar.  (Fotografia e informação obtidas aqui.)

Os ritos de passagem (ou de iniciação) são cerimónias que assinalam transições importantes no desenvolvimento do indivíduo e em que ocorre uma mudança de estatuto social. Por exemplo: os ritos ligados ao nascimento (como o baptismo), os ritos da puberdade (a iniciação à condição de adulto), o casamento, ritos de integração em grupos específicos (nomeadamente as praxes nas escolas e nas Forças Armadas), ritos ligados à morte (como os funerais).

Vejamos com mais detalhe os ritos da puberdade. Estes assinalam o fim da infância e a entrada na maioridade (que por vezes tem várias fases), ou seja, o início da capacidade sexual e reprodutiva e o direito de desempenhar as funções próprias dos adultos. Essas cerimónias constituem uma iniciação na vida dos adultos. (Nalgumas sociedades não se reconhece a adolescência como um período diferenciado.)

Em muitas sociedades essa passagem para a condição de adulto é bastante dramatizada e é vista como uma grande mudança – como se a criança morresse e o adulto fosse outra pessoa. Muitas vezes chega-se ao ponto de atribuir um novo nome ao iniciado.

As características desses ritos dependem principalmente do estilo de vida do povo em causa e do sexo da pessoa iniciada, pois as provas incluídas nas cerimónias pretendem ser uma preparação para a vida e uma ocasião para o iniciado demonstrar as suas qualidades.

Por isso, quando se trata de um povo guerreiro (ou então um povo cuja sobrevivência depende de actividades, como a caça e a pesca, cujo exercício requer coragem, força e resistência) as provas exigidas aos iniciados são normalmente violentas e dolorosas.

Quando as actividades predominantes numa sociedade são mais “pacíficas”, como a agricultura, os ritos são normalmente menos violentos e menos exigentes.

Contudo, por vezes a violência e a exigência dos ritos deve-se a crenças religiosas e morais e é independente do estilo de vida. É por isso que nalgumas sociedades existem ritos de passagem femininos muito violentos e dolorosos (envolvendo, por exemplo, mutilações genitais).

Os ritos da puberdade, e outros ritos de passagem, simbolizam a aceitação por parte do indivíduo das crenças, costumes e normas comunitárias: ao submeter-se às provas ele dá o seu assentimento à tradição.

Esses ritos simbolizam também o reconhecimento social do indivíduo e a sua integração no grupo – dos homens, das mulheres, etc. É como se lhe dissessem: “agora és um de nós”, “agora podes viver (caçar, pescar, comer, conversar de igual para igual, casar, etc.) connosco”.

A repetição dos ritos e o facto de os iniciados de hoje serem os futuros iniciadores, reforçam a coesão do grupo e a sua identidade cultural colectiva.

Pertencer ao grupo, ser aceite pelos outros, partilhar essa identidade colectiva, é importante em termos psicológicos e ajuda a definir a identidade individual – ajuda a pessoa a saber quem é e a ser reconhecida pelos outros como tal. Sem isso, as pessoas normalmente sentem-se desenraizadas e “perdidas”.

Devido a essa necessidade de identificação e reconhecimento, em muitos ritos de iniciação são feitas marcas corporais características do grupo e que demonstram publicamente que aquele individuo dele faz parte: tatuagens, cicatrizes, dedos amputados, etc.

Nas modernas sociedades industrializadas continuam a existir ritos de passagem ou iniciação: baptismo, casamento, entrega de diplomas, praxes, etc.

Mas não têm a importância social que têm em sociedades mais pequenas e “primitivas”: não envolvem toda a comunidade e têm um significado mais vago e muito menos força simbólica. Não têm quase nunca um carácter obrigatório. Por isso, não têm o poder integrador dos ritos de outras sociedades e são menos eficazes a promover a identidade colectiva e influenciam menos a identidade individual.

No caso dos ritos de puberdade isso é muito notório. Nas nossas sociedades a passagem da infância à idade adulta é muito gradual, pois pelo meio existe o longo período da adolescência, e não se faz através de um grande e simbólico rito de iniciação, embora existam pequenos ritos de iniciação ligados à entrada na escola (nomeadamente as praxes universitárias) e à celebração de alguns aniversários (nomeadamente os 18 anos, que permitem votar, tirar carta de condução, etc.).

1 comentário:

Andressa Carolina disse...

muito legal estou estudando para um seminário e além do material exigido estou buscando mais informações e indo mais a fundo nos ritos de passagem em sociedades indígenas.