domingo, 6 de julho de 2014

Lucidez e coragem da menina do mar

Sophia de Mello Breyner Andresen e  Francisco Sousa Tavares

Entrevista de Sophia de Mello Breyner Andresen e de Francisco Sousa Tavares a uma televisão francesa em 1968. Falaram com lucidez e coragem sobre a falta de liberdade e sobre as condições de vida em Portugal.

Também são entrevistados estudantes universitários que, compreensivelmente, não mostram a cara. Um dos motivos de interesse desta reportagem televisiva é a possibilidade de compararmos as análises desses estudantes e as análises da poetisa e do seu marido.

domingo, 11 de maio de 2014

Mães e filhos

Heyman Mothers Spread fotografias de mães e filhos

heyman mothers spread mãe e filha

Fotografias de Ken Heyman.

Mais aqui – e todas elas espantosas. Muitas foram tiradas para um livro da autoria de Ken Heyman e da antropóloga Margaret Mead, chamado Família, de 1965.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Este é o lugar

Este é o lugar | This must be the place

Fotografias de Pieter Hugo na Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa, até 1 de junho de 2014.

pieter-hugo-self-portrait Pieter Hugo

hugoself Pieter Hugo

Imagens: dois autorretratos de Pieter Hugo, duas das dezenas de fotografias que fazem parte da exposição.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Mal resolvido

Keystone 1960

Há muito, muito tempo, num país longínquo, dois monges puseram-se destemidamente a caminho de um mosteiro distante. Estava um belo dia de vento e chuva. Iam a pé, avançando lentamente por uma estrada de terra batida muito enlameada e cheia de poças de água.

A certa altura, viram uma mulher que queria atravessar a estrada mas que hesitava, pois percebia que ia sujar o seu bonito vestido comprido na lama. Um dos monges, o mais velho dos dois (tinha quarenta e tal anos, enquanto o outro andava pelos vinte e poucos), aproximou-se da mulher e, depois de a saudar com uma curta vénia e lhe pedir licença, ergueu-a no ar com gestos cuidadosos e respeitosos (evitou que o seu corpo tocasse no dela), e colocou-a do outro lado da estrada. Fez outra vénia, um pouco mais rasgada que a primeira, e assim que ela terminou as palavras de agradecimento retomou a caminhada, seguido de perto pelo outro monge.

Até ao momento em que encontraram a mulher, o monge mais novo tinha-se mostrado alegre e espirituoso, falando pelos cotovelos, mas agora ia calado e respondia com secos monossílabos às questões do companheiro. O seu ar era tão carrancudo que o silêncio se tornou mais sombrio e pesado que o céu, apesar deste ameaçar com uma tempestade. Horas depois, já mergulhados na escuridão da noite e quando o cansaço ameaçava transformar-se em dor, chegaram ao mosteiro. Rezaram e depois lavaram-se e comeram. O monge mais novo manteve sempre o seu silêncio irritado e ostensivo. Quando o seu companheiro já se preparava, com a tigela e a colher na mão, para se levantar é que, sem fitá-lo com o olhar pregado no chão, finalmente falou:

- Fizeste mal em pegar naquela mulher ao colo. Porventura esqueceste que fizemos um voto de castidade?

O monge mais velho sentou outra vez o corpo meio erguido, pousou devagar a tigela e a colher na madeira velha da mesa e fitou o outro monge com um imperceptível sorriso nos lábios. Observou-lhe primeiro as mãos, morenas e grandes mas sem marcas de trabalho, e depois olhou para dentro dos seus olhos, que logo fugiram para o lado e depois para o chão. Se os monges daquele distante mosteiro não se tivessem já recolhido teriam encontrado doçura e não dureza ou amargura na voz do monge mais velho:

- Eu deixei a mulher na estrada, há horas atrás. Tu ainda a trazes contigo.

Fotografia: Keystone, 1960. Encontrada no facebook do grande fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado.

História: Lida não sei onde e recontada de memória.

domingo, 23 de março de 2014

Racismo à brasileira

milton nascimento jovem

Quem quer ser negro no Brasil?

«Uma médica que nos hospitais é confundida com empregada de limpeza e cresceu a ouvir “negro não presta”. Um magistrado que foi o primeiro negro num tribunal superior do país em Brasília. Um doutorado a quem pedem para arrumar o carro. Breve geografia do racismo à brasileira (…)

No segundo país com a maior população negra do mundo a seguir à Nigéria, ser negro é pertencer a uma maioria de 51% da população de 200 milhões. Mas o último Censos, de 2010, mostrava que apenas 26% dos universitários eram negros; e apenas 2,66% dos alunos que terminaram o curso de Medicina eram negros».

Documentário sobre o racismo no Brasil: Justiça Seja Feita - Racismo.

A banda sonora ideal para a notícia do Público: Caçador de Mim, de Milton Nascimento.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Descoberta tribo isolada na Amazónia

“Um vídeo comprova a existência de índios Kawahiva no Mato Grosso. A revelação foi feita pela Fundação Internacional do Índio (Funai).

A Funai apresentou esta semana um vídeo inédito sobre os índios Kawahiva. A tribo é uma das últimas no mundo a viver em isolamento na Amazónia brasileira.

O vídeo - gravado pela Fundação há dois anos e só agora divulgado - mostra um grupo de homens, mulheres e crianças a caminhar pela selva.

Um dos pesquisadores, que trabalha há 20 anos na proteção dos direitos dos Kawahiva, afirmou que não pretendia promover o encontro.

A Funai afirmou que resolveu mostrar o vídeo para provar a existência da tribo, que foi questionada por produtores rurais.”

Fonte: TSF

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Empresas multinacionais & poluição

derrame de petróleo na nigéria

Num julgamento recente, a empresa multinacional Shell foi condenada apenas parcialmente por poluição na Nigéria. Foi “ilibada em quatro das cinco acusações de que era alvo, num processo relacionado com derrames de petróleo (…). A filial da empresa naquele país – a Shell Nigéria – foi considerada culpada por um dos derrames, ocorridos entre 2005 e 2007, na zona do delta do rio Níger. Mas a empresa-mãe do grupo multinacional, com sede na Holanda, foi ilibada de qualquer responsabilidade. (…) Os agricultores [que apresentaram a queixa] reclamavam indemnizações por derrames que poluíram o solo e a água em três aldeias, impossibilitando a sua utilização como fonte de recursos para as comunidades da região.”

Leia mais no jornal Público.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Pobreza

crianças pobres numa escola portuguesa

A fotografia foi tirada numa escola primária portuguesa (não identificada), em 1940. É da autoria do fotógrafo norte-americano Bernard Hoffman e foi publicada na revista «Life».

Post também publicado aqui.

(Encontrei a fotografia no facebook da professora Catarina Pires.)

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

domingo, 12 de junho de 2011

Na Praia de Chesil: a importância das palavras que não são ditas

Pedi aos alunos que lessem e analisassem o livro  Na Praia de Chesil , de Ian McEwan. O melhor trabalho foi feito pela aluna Andreia Gonçalves, do 12ºE. Ei-lo.

Ian McEwan Na Praia de Chesil é um romance do escritor britânico Ian McEwan. A acção principal decorre em Julho de 1962, na noite de núpcias dos protagonistas, Florence e Edward, que é passada precisamente na Praia de Chesil, em Dorset, Inglaterra. A acção secundária, por sua vez, insere analepses na história de modo a contextualizar a vida e as acções das personagens.

Na década de 60 ainda se faziam sentir as repercussões da II Guerra Mundial e, desta forma, foi o período da expansão do Marxismo. Florence é identificada como apoiante da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), já que a considerava uma força benéfica para o mundo, em detrimento do Fascismo e do Capitalismo. Além disso, é de referir que ambos se conheceram num protesto contra as armas nucleares, cujo desenvolvimento se deve, em parte, à II Grande Guerra. Esta década foi também uma época de mudanças, pois a religião já havia perdido o seu vigor e tornara-se quase insignificante. Foi ainda o período da emancipação feminina em Inglaterra, da alteração subjacente ao conceito de juventude (que deixou de ser um fardo para ser imensamente desejada) e da grande revolução sexual. Apesar disso, estes jovens virgens, com poucos mais de 20 anos, são provavelmente a última geração que não é alvo desta libertação sexual, o que condiciona tragicamente o destino da sua vida em comum.

Apesar de uma conversa sobre dificuldades sexuais ser impossível, ambos mostram reacções e expectativas bastante díspares em relação à noite cujo objectivo é consumar o seu casamento, o que se deve a todo um processo de socialização (fenómeno pelo qual um indivíduo interioriza os valores, as normas e os comportamentos característicos da cultura em que está inserido) e às influências e aspectos a ele inerentes.

Florence e Edward cresceram em meios bastante distintos. Ela era de uma família de classe alta e ele de uma de classe média, que sofria algumas dificuldades. Os agentes de socialização que os rodeavam e os locais que frequentavam também apresentavam diferenças.

A mãe de Florence, professora universitária em Oxford, era intelectual, rígida, tensa, quase intocável e praticamente incapaz de manter uma conversa acerca da intimidade (apesar de toda a relutância da jovem face à personalidade da mãe, é inquestionável a influência do carácter desta na protagonista, pois, tal como a sua genetriz, a rapariga não consegue falar sobre a intimidade, é bastante tensa e rígida; isto quer dizer que, mesmo que inconscientemente, ela adoptou bastantes aspectos característicos da sua progenitora, pois esta surgia como um modelo a seguir e o exemplo feminino na vida da jovem); o pai, por sua vez, era alguém cuja presença despertava sentimentos contraditórios na própria filha. A mãe de Edward, por outro lado, tinha problemas mentais e o pai, director de uma escola primária, era um homem trabalhador que desempenhava as funções que deveriam ser executadas pela mulher na lida da casa (o que acaba por transmitir ao filho uma noção de igualdade entre os sexos, tornando-o mais tolerante face aos recuos da namorada). Quanto aos amigos e ao ambiente que os rodeavam, Florence frequentava locais conservadores e assistia a espectáculos musicais, convivia maioritariamente com raparigas, mas não lhes confidenciava os seus medos, o seu objectivo não era arranjar um namorado, pois quem o fazia “desaparecia” socialmente; Edward frequentava pubs, chegara a entrar em pequenas lutas e tinha um grupo de amigos que partilhava piadas sobre relações com mulheres e sobre amigos que haviam casado e, portanto, já não saiam com este grupo.

Assim, é possível notar diferenças evidentes a nível do processo de socialização do qual cada um foi alvo. Isso resultou na formação de duas pessoas cujos pontos de vista acerca da intimidade não coincidem. Edward, vivenciando um certo sentimento de inveja face aos amigos que já haviam tido relações sexuais, anseia pela noite de núpcias, mas com receios acerca de determinados aspectos dos quais ouvira falar, como “chegar cedo demais”. Florence, apesar de todo o amor que sente pelo noivo, sente toda uma repulsa, aversão, desprezo, receito e vergonha (ao ponto de considerar reconfortante a possibilidade de Edward ter um problema de saúde que os impossibilitasse de ter relações sexuais) pelo que virá a acontecer e pelo seu próprio comportamento face a isso. No entanto, é curioso o facto de ela desejar ter um filho, mas sempre pretendendo que este fosse concebido quase miraculosamente.

Ambos queriam manter as aparências, evitavam desapontar ou humilhar-se a si mesmos. Tudo o que Edward sabia sobre mulheres derivava de Florence, das poucas tentativas bem sucedidas em partilhar alguma intimidade. Ela, insegura, evitava esses momentos. Tinha um nojo infantil a beijos que envolvessem língua ou a qualquer carícia e todo o conhecimento que tinha advinha de um manual “moderno e inovador destinado a auxiliar as jovens noivas”. Ao contrário do que para ele o sexo significava, ela considerava-o um preço a pagar pelo amor que sentia, algo que era impossível de confidenciar ao seu noivo.

No entanto, esta opinião começa por se alterar quando ambos estão no quarto e as carícias de Edward despertam sensações aliciantes no seu corpo e ela sente mesmo uma vontade de tocar no seu marido. É, provavelmente, neste momento que Florence se depara com um dilema entre o prazer que sente e a repulsa que ocupa o seu pensamento. É, assim, nesta passagem da obra que nos deparamos com o que podemos denominar de repressão, mas a nível cultural. As sensações que advêm do toque de Edward contrastam, deste modo, com a racionalidade e com o que de certa forma lhe foi transmitido, dado que para muitas mulheres deste período a relação sexual era um sacrifício. No fundo, o que a protagonista sente resulta de uma ignorância sexual espoletada pela cultura que a rodeia.

Hoje em dia, apesar de difícil, seria necessária uma conversa sobre assunto e, principalmente, sobre o que aconteceu quando ambos estavam no quarto e que aniquilou a possibilidade de virem a ter uma vida em comum. No entanto, nesta época, como referido, era impensável falar sobre sexo. Todos estes acontecimentos resultam de uma imensa falta de compreensão e diálogo no qual cada personagem exporia as suas inseguranças e dúvidas; incapazes de realizar tal proeza, acabam por complicar a conversa, ofendendo-se mutuamente. Florence, não sendo capaz de expor os seus sentimentos a Edward, baseia a discussão no dinheiro, acusando o marido de o desejar (algo que ela sabia não ser verdadeiro); o jovem, por sua vez, atribui-lhe a culpa da sua ejaculação precoce. Outro aspecto significativo nesta conversa é a importância atribuída à pressão social (nomeadamente atenção dos outros – quando os outros reparam no que fazemos, aprovando ou desaprovando-o – e conhecimento prévio da existência de sanções – agimos segundo prémios ou castigos dos quais temos conhecimento por já terem sido aplicados), na medida em que, para Florence, apenas era necessário manter as aparências, uma vez que ela sugere a Edward que este tenha outra mulher com a qual terá relações sexuais, da qual ninguém teria conhecimento, pois aos olhos dos outros ele seria um marido exemplar, capaz de estar com a sua mulher e que não havia sido recusado. Deste modo, não seria alvo de sanções (consequências do comportamento), como uma possível exclusão de um grupo de amigos ou a humilhação pública.

O casal acaba por não ser capaz de admitir o real tema da conversa nem pedir desculpa pelo que foi dito injustamente; sabem que erraram, sabem que têm dificuldades pessoais, sabem que se amam, sabem que querem estar juntos, mas nenhum dos dois admite e, portanto, a relação fracassa sem que se encontrem uma vez mais. No final, não tentam, não conversam, falham e deixam-se vencer pelo orgulho, pela vergonha, pelo preconceito e pela repulsa, que superam a amor que os unia. Anos depois, sentem a falta um do outro, mas ao que parece, é tarde demais.

Assim, todos estes aspectos conduzem à conclusão de que tanto Florence como Edward são produto da sociedade puritana que fez parte do cenário do seu desenvolvimento físico e psicológico. Ambos divagam entre pensamentos por vezes contraditórios e confusos. São confrontados com situações que os põem à prova e às quais o amor não consegue ser mais forte. Ela é a mulher da vida dele e ele é o homem da vida dela, no entanto, não conseguem ultrapassar essa linha ténue que teria mudado tudo. São, deste modo, vítimas de uma sociedade reprimida, contida, orgulhosa, demasiado educada e inconsciente, na qual reina uma moral vitoriana prestes a ser quebrada.

A importância das palavras que não são ditas ganha, deste modo, uma nova dimensão, ao ponto de uma simples, mas importante, conversa alterar todo um percurso de vida.

Andreia Gonçalves

quarta-feira, 30 de março de 2011

Portugal: emigrantes e imigrantes

«Os números sobre a emigração de portugueses, neste período, são impressionantes. Entre 1958 e 1974, as estatísticas oficiais registam que 1,5 milhões de indivíduos tenham abandonado Portugal. [Cerca de 1 milhão para a França. Muitos desses emigrantes saíram ilegalmente do país - “a salto”.] Nos anos oitenta e noventa a emigração continua, sobretudo para a Alemanha e a Suíça [e Luxemburgo].» Carlos Fontes

“Ei-los Que Partem – A história da emigração portuguesa” é um programa em 5 episódios transmitido na RTP em 2006.  No primeiro vídeo foca-se a emigração para França, principalmente a partir de 1960. No segundo vídeo fala-se da emigração para o Luxemburgo, principalmente a partir a partir de 1980.

 

A canção “La Valise en Carton”, também conhecida por “Le Portugais”, de Linda de Suza.

Embora os portugueses continuem a sair de Portugal, o nosso país tornou-se entretanto um país de destino para imigrantes vindos de diversos países, nomeadamente do Brasil, países africanos de língua portuguesa e diversos países do Leste da Europa. Como se pode ver em “Nós e os outros: uma sociedade plural” – episódio do documentário “Portugal, um retrato social”, da autoria do sociólogo António Barreto e  realizado por  Joana Pontes. A música é da autoria de Rodrigo Leão.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Não é um jogo, embora algumas pessoas o joguem

JOGO

Eu, sabendo que te amo,
e como as coisas do amor são difíceis,
preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.

Nuno Júdice

Via

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Agitação nos espelhos

feelings on off

Uma vez que o Dia dos Namorados está à porta, eis um poema de amor. Suponho que agradará mais aos amantes da poesia do que aos amantes do amor – pois  é um poema muito pouco óbvio, contrariamente ao que sucede quase sempre com o amor.

OS MENSAGEIROS

A palavra de um caracol em folha a servir de prato?
Não é minha. Não a aceitem.

Ácido asséptico em frasco selado?
Não o aceitem. Não é genuíno.

Um anel de oiro com o sol lá dentro?
Mentiras. Mentiras e dor.

Gelo numa folha, o caldeirão
Imaculado, que fala e crepita

Sozinho, no cimo de cada um
Dos nove Alpes negros.

Uma agitação nos espelhos,
O mar despedaça o mar cinzento -

Amor, amor, o meu tempo.

Sylvia Plath

Poema: aqui. Imagem: aqui.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Internet de banda larga nas escolas fez as notas baixarem?

jovens alunos na internetNotícia do Jornal de Negócios, lida aqui:

«A introdução de banda larga nas escolas - uma das bandeiras dos executivos de José Sócrates na política de educação - teve um impacto negativo generalizado nas notas dos exames nacionais de português e matemática do 9.° e 12.° anos, com maior impacto nos rapazes do que nas raparigas. Esta é a principal conclusão de um artigo recente assinado por Rodrigo Belo, Pedro Ferreira e Rahul Telang da Carnegie Mellon University e das universidades Técnica e Católica.
No estudo "Impact of Broadband in Schools: Evidence from Portugal" - que será submetido em breve para publicação na revista "Review of Economics and Statistics" e que foi apresentado na semana passada no ISEG -, os autores escrevem que "em média, as notas baixaram cerca de 7,7% entre 2005 e 2008 e cerca de 6,3% entre 2005 e 2009 devido ao uso de banda larga".
A explicação é simples: "o nosso argumento central para um declínio no desempenho dos estudantes é o de que a banda larga cria distracções", escrevem. Este efeito é mais sentido entre rapazes do que entre raparigas,o que vai ao encontro "de um inquérito que indica que é mais provável os rapazes dedicarem-se a actividades que os distraiam do que as raparigas"

O estudo sugere que a introdução da banda larga nas escolas teve um impacto negativo no aproveitamento dos alunos. Talvez… Mas qual terá sido o impacto no aproveitamento escolar da introdução da banda larga nos agregados familiares? No caso de alguns alunos meus conhecidos esse impacto foi muito negativo, mas não quero generalizar, pois a amostra é pequena e pouco representativa.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Mais Internet

internet globalSegundo a Pordata, no ano de 2002, em 26,8% dos agregados domésticos portugueses havia computador, e em 15,1% deles havia ligação à Internet. Em 2010 as percentagens eram, respectivamente, de 59,5% e 53,7%.

Muitas pessoas, nomeadamente jovens, já passam mais tempo na Internet do que a ver televisão. Um estudo recente efectuado nos EUA mostra que, entre os jovens (de 18-30 anos) norte-americanos, a Internet ultrapassou a televisão como fonte de notícias; noutras idades a televisão continua a ser o meio mais procurado, mas o número de pessoas que procura a Internet para se informar tem aumentado. 

Como é óbvio, a Internet tem muitas outras funções além dessa, que está longe de ser a principal razão que leva as pessoas a navegarem na rede. A música, os filmes e séries, os jogos e as redes sociais são razões muito mais populares. Mas, por isso mesmo, é significativo que até a procura de notícias tenha aumentado.

Não conheço dados relativamente  a Portugal, mas é plausível que a tendência descrita também cá ocorra.

O crescimento da Internet faz, naturalmente, aumentar a sua influência como agente de socialização. Mas que tipo de influência é essa? Como pode ser descrita? O que é dito aqui, aqui, aqui, aqui e aqui,  será exagero?

domingo, 19 de dezembro de 2010

Sugestão de leitura: A Salvação de Wang-Fô e outros Contos Orientais

A Salvação de Wang-Fô e outros Contos Orientais

A Salvação de Wang-Fô e outros Contos Orientais, é um pequeno livro de Marguerite Yourcenar (Publicações Dom Quixote, 2002).

São dez contos  breves, mas muito interessantes e fáceis de ler. Leva-se mais tempo a pensar nas histórias do que a lê-las.

Eis um pequeno excerto, retirado do conto intitulado “O Último Amor do Príncipe Genghi”:

“- Vou morrer - disse a custo. – Não me queixo de uma sorte que partilho com as flores, com os insectos, com os astros. Num universo onde tudo passa como um sonho, seria censurável durar sempre. Não me queixo de que as coisas, os seres, os corações sejam perecíveis, porquanto parte da sua beleza é feita desse infortúnio. O que me aflige é que…”

Se quiser saber o que é que o aflige tem uma solução fácil e garantidamente agradável: ler o livro!

(Preço: 5,04€. Veja aqui.)

Marguerite Yourcenar

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Vantagens da leitura

idoso a ler william may reading Título de um artigo do jornal Público: “O cérebro de um adulto muda tanto como o de uma criança, quando aprende a ler”.

Primeiros parágrafos:

«Quando se aprende a ler, é como se uma armada vitoriosa chegasse às costas desprevenidas do nosso cérebro. Muda-o para sempre, conquistando territórios que eram utilizados para processar outros estímulos - para reconhecer faces, por exemplo - e estendendo a sua influência a áreas relacionadas, como o córtex auditivo, para criar a sua própria fortaleza: uma nova zona especializada, a Área da Forma Visual das Palavras. Isto acontece sempre, quer se tenha aprendido a ler aos seis anos ou já na idade adulta.
Esta é uma das conclusões de um estudo internacional publicado hoje na edição online da revista Science, em que participaram cientistas portugueses - e voluntários portugueses também, pessoas que aprenderam a ler já tarde na vida.
"Este é o primeiro trabalho que compara o cérebro de pessoas letradas e analfabetas, mas também de ex-iletradas (que aprenderam a ler em adultos)", explica José Morais, professor jubilado de Psicologia da Universidade Livre de Bruxelas e um dos autores do artigo.»

Leia mais.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Pode suceder a mim, a ti ou a outra pessoa qualquer

Vincent Van Gogh Sorrow   old man in sorrow  18-Year Old Mother from Oklahoma During the Great Depression

Quando ouvimos alguns especialistas pronunciarem-se acerca da depressão e do desespero, da doença e da pobreza,  esses problemas parecem coisas distantes e abstractas que só acontecem a pessoas que não conhecemos. Mas isso é uma ilusão. Viva-se ou não num período de crise económica ou pessoal, os problemas podem cair em cima de mim, dos meus amigos e familiares, do meu vizinho, do meu colega ou da pessoa vagamente familiar que fugazmente vejo na rua quando passo de automóvel. Virar a cara para o lado e fingir que não é nada comigo, não é, portanto, solução.

Virar a cara para o lado e fingir que não é nada connosco não é solução. Quer isso seja feito pelo governo, pela administração de uma instituição ou pela pessoa X ou Y. E só em termos muito imediatos é que é o caminho mais fácil.

 

Música a condizer: Nocturno nº 7 de Chopin, interpretado por Sequeira Costa.

Desenho e pintura de Vincent Van Gogh. Fotografia encontrada aqui (desconheço o autor).

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Crónica da desolação

camboja caveiras de vítimas dos khmers vermelho no campo de extermínio S-21Caveiras de vítimas dos Khmers Vermelhos no campo de extermínio S-21, no Camboja.

«Entre 1915 1 1917, os Turcos massacraram talvez um milhão e meio de arménios. Nos anos 30, Estaline deu ordem para que se matassem de 7 a 10 milhões de pessoas. É geralmente atribuído o número de 6 milhões ao genocídio nazi dos Judeus. Depois foi a vez dos massacres no Camboja, no Ruanda e, quando o século se aproximava do fim, na Bósnia, no Kosovo e em Timor-Leste. (…)

[Mas] as horrendas carnificinas do século XX não foram um fenómeno novo, salvo pelo facto de a tecnologia e as comunicações modernas permitirem matar muitas mais pessoas num período de tempo relativamente curto. Como Lawrence Keeley mostrou em War Before Civilization, a guerra tem sido uma constante na vida da vasta maioria das culturas humanas, não se fazendo geralmente prisioneiros masculinos, embora, por vezes, se capturem mulheres e crianças. Segundo tudo indica, não eram invulgares os massacres de grupos inteiros de pessoas. As valas comuns da Europa – locais de enterramento que contêm pessoas de todas as idades que tiveram uma morte violenta – têm pelo menos 7000 anos, conforme atesta a vala neolítica de Talheim. Em Crow Deek, no Dakota do Sul, mais de um século antes de Cristóvão Colombo ter partido para a América, 500 homens, mulheres e crianças foram escalpados e mutilados antes de serem lançados para uma vala. É tremendo pensar que em muitas sociedades tribais, apesar de não existirem metralhadoras nem explosivos sofisticados, a percentagem da população morta anualmente em guerras era muito superior à de qualquer sociedade moderna, incluindo a Alemanha e a Rússia no século XX.»

Peter Singer, Um Só Mundo – A Ética da Globalização, Gradiva, Lisboa, 2004, pp. 161 e 158.

armenian genocide massacre arménios Vítimas do massacre dos arménios perpetrado pelos turcos.

Foi por estas e por muitas outras coisas infelizmente semelhantes que Walter Benjamin, filósofo judeu alemão que se suicidou enquanto tentava fugir aos Nazis, disse que a história humana é uma crónica da desolação.

terça-feira, 13 de julho de 2010

A guerra sem fim

beijo-do-soldado-no-comboio

Na fotografia, cujo autor desconheço, um soldado beija acrobaticamente a namorada, antes de partir para a guerra.   A imagem pode levar-nos a pensar em canções românticas, como por exemplo “Aranjuez Mon Amour” de Richard Anthony, mas também em realidades mais tristes que o amor correspondido. Por exemplo: muitos soldados regressam da guerra com perturbações psicológicas graves, designadas por stress de guerra. Estima-se que em Portugal existam cerca de 150 mil homens com esse problema, por terem combatido na guerra do Ultramar. Para eles a guerra ainda não terminou.

Audição:  “Aranjuez Mon Amour” de Richard Anthony.